Enquanto o brasileiro pula o Carnaval, a China comemora a chegada do Ano do Cavalo de Fogo nesta terça-feira (17). De olho na segunda maior economia do mundo, especialistas de todo o globo fazem perguntas importantes sobre o fôlego da atividade no Oriente. Para analistas ouvidos pelo InfoMoney, os agressivos pacotes de estímulo evitaram o pior no setor imobiliário, mas o problema crônico de falta de demanda interna fará com que o país siga exportando deflação para o mundo. Nesse cenário, o Brasil enfrentará desafios.
Apesar de um crescimento de 5% no ano passado, dentro da meta do governo, a China enfrenta um problema maior: desequilíbrio entre oferta e demanda. Em janeiro, o índice de preços ao consumidor, que mede a variação de preços na saída das fábricas, recuou pelo 40º mês consecutivo, indicando que a indústria chinesa opera com excesso de capacidade.
Na outra ponta, o índice de preços ao consumidor subiu apenas 0,2% em janeiro na comparação anual. Ao lado de vendas no varejo crescendo no ritmo mais lento desde o colapso provocado pela Covid-19, em 2020, o dado mostra a fraqueza da demanda doméstica. Para não depender apenas de exportações, o governo chinês vem adotando medidas para fortalecer o consumo interno.
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O consenso é de que o país foi bem-sucedido em evitar um risco sistêmico, mas a resolução do desequilíbrio continua distante. Para Lucas Sigu Souza, sócio-fundador da Ciano Investimentos, o plano estatal reduziu “a praticamente zero” o risco de um colapso no setor imobiliário, que vem sofrendo com a falta de apetite dos chineses.
“A China tem um plano muito claro de canalizar as empresas para seguir uma estratégia de país. Os estímulos não deixaram o setor imobiliário estancar e evitaram o efeito cascata de quebra de empresas, o que traz uma previsibilidade importante para o mercado global”, avalia.
No entanto, estabilização não é sinônimo de retomada. Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, alerta que o motor do crescimento chinês está engasgado. “O modelo de crescimento baseado em expansão imobiliária está se esgotando. Há estabilização na margem, mas não entendemos que haja uma retomada cíclica”, diz.
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Os números citados por João Pedro Moreno, analista da Nexgen Capital, reforçam o pessimismo: “o investimento imobiliário caiu 17,2% e cerca de 80 milhões de imóveis não vendidos continuam a pressionar o mercado. O foco do governo permanece em manufatura e tecnologia, não em um resgate real do setor de construção”.
As vendas de imóveis novos caíram ao nível mais baixo em mais de 15 anos, e os preços de apartamentos usados despencaram. Milhões de famílias, atingidas pela queda do valor de seus imóveis, reduziram os gastos, mostra reportagem do The New York Times. Governos locais, que dependem fortemente do setor imobiliário para arrecadação, enfrentam dificuldades para pagar seus servidores públicos.
Exportação de deflação e indústria brasileira
Com o consumo interno das famílias chinesas ainda fraco — a cerca de 20 pontos percentuais abaixo da média global, enquanto o investimento impulsionado por dívida está cerca de 20 pontos acima —, a saída para a indústria chinesa tem sido despejar o excesso de produção no mercado internacional.
“A China continua ‘exportando deflação’ ao direcionar seu excedente para mercados globais, pressionando preços internacionais para baixo”, explica Moreno.
Efeitos no Brasil
Esse fenômeno cria um efeito duplo para o Brasil, como detalha Marianna Costa: “para a indústria brasileira, o impacto é assimétrico. Setores como siderurgia e metalurgia podem enfrentar maior concorrência. Por outro lado, a importação de insumos a preços menores tem um efeito desinflacionário sobre bens comercializáveis no Brasil”.
Para as gigantes brasileiras de commodities, o cenário de 2026 exige cautela e estratégia. No setor de mineração, a demanda morna da construção civil chinesa deve manter os preços sob pressão. “A crise imobiliária limita a demanda por aço e minério, criando pressão de baixa no preço dessas commodities”, afirma Moreno.
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Contudo, Souza vê um copo meio cheio impulsionado pela transição energética: “se a construção não cresce, a indústria de carros elétricos e infraestrutura tecnológica cresce e vai precisar de minério e aço da mesma maneira”. Para ele, o faturamento da Vale (VALE3) não deve subir de maneira expressiva da China, mas o país asiático também não deve ser culpado por uma queda abrupta de faturamento se mantiver crescimento do PIB, já que a demanda migra de setor, mas não desaparece.
No agronegócio, a relação comercial deve ficar mais tensa. Embora a demanda por alimentos seja historicamente resiliente, a China deve usar seu poder de monopsônio (comprador dominante) para negociar preços com dureza em 2026.
Lucas Sigu Souza alerta para um impacto específico nos frigoríficos brasileiros JBS (JBSS3), MBRF (MBRF3) e Minerva (BEEF3): “a China investe muito em criação de frango e porco para reduzir a dependência de importação. Se a oferta interna deles aumenta, o preço da carne bovina importada sofre pressão competitiva”.
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Investir na China é oportunidade ou armadilha?
Para o investidor brasileiro que cogita alocar capital na Ásia via ETFs ou BDRs, a recomendação é de seletividade extrema. Os valuations descontados das empresas chinesas podem parecer atrativos, mas escondem riscos estruturais.
“A maior preocupação é o cenário geopolítico sem previsibilidade, especialmente com a possibilidade de novas tarifas comerciais”, diz Souza, que sugere foco nos setores de tecnologia e financeiro, evitando a todo custo a exposição ao setor imobiliário.
João Pedro Moreno concorda que os ativos negociam com desconto, mas alerta para o risco de “value trap” (armadilha de valor) se a transição da China para uma economia de consumo demorar mais que o esperado. A volatilidade deve permanecer elevada, exigindo estômago e horizonte de longo prazo do investidor.
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