O economista Gustavo Franco, fundador da Rio Bravo Investimentos, critica a política econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente do Banco Central compara o modelo a um carro que gasta muito, mas não sai do lugar.
“O Palácio [do Planalto] pisa no acelerador, o Banco Central pisa no freio, o carro fica andando muito pouco, no mesmo lugar, com os pneus cantando, gastando muita energia, fazendo fumaça, barulho, mas o progresso é muito pequeno. É uma situação de inconsistência”, analisou.
Franco falou sobre o tema no episódio #138 do programa Outliers InfoMoney, comandado por Clara Sodré e Fabiano Cintra.“Essa situação traz risco e cria tensão financeira. O sistema financeiro fica estressado, as companhias ficam excessivamente endividadas. Explode uma RJ [recuperação judicial] aqui e pode ser uma reação em cadeia”, alerta.
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Gustavo Franco afirma no podcast que a atual gestão Lula fracassou ao tentar cumprir a meta fiscal mais pelo lado do aumento da arrecadação do que pelo corte de gastos.
“Foi um pouco uma fala do ministro [Fernando] Haddad querendo expressar, do ponto de vista do governo, que era possível casar essa história do desequilíbrio fiscal com uma solução pela esquerda, que seria cobrar impostos de quem não paga”, pontua. “É uma velha questão da Receita Federal brasileira, que diz que pra cada R$ 1 pago de imposto tem sei lá quantos sonegados, então bastaria cobrar os impostos para resolver o problema”, complementa.
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“Não, não é assim. Isso é uma falsidade, isso é mentira”, garante Franco, que também afirma que O Brasil já tem uma carga tributária superelevada, e a tentativa de elevar nesse governo agora fracassou. “Fracassou politicamente, fracassou na prática. Não é pelos impostos que nós vamos resolver o problema fiscal, é pelo lado do gasto”.
“O problema da fala do ministro Haddad é que fica parecendo que corte de gasto é um problema da direita, e não é. É um problema do bom senso. Limites orçamentários não são questão neoliberal, ideológica, de direita nem de esquerda. É questão de matemática. Isso estragou um pouco a conversa, porque qualquer debate de corte de gasto vira ‘os caras que querem o estado mínimo’. Eles vêm com essa conversinha, enfim, meio farsante”
Para Gustavo Franco, formado em Economia pela PUC-Rio com doutorado na Universidade Harvard, considerar o ajuste fiscal uma pauta de partidos de direita envenena o debate público e é historicamente incorreto.
“A partir daí [a primeira eleição do presidente Lula, em 2002], acho que mudou o olhar sobre o Brasil: ‘olha só, um grupo fez o plano de estabilização, mas tem alternância do poder, e os que vêm, que são da oposição, mantêm tudo igual’. Mantiveram tudo igual: meta de inflação, acordo com o FMI, tudo certinho”, diz o economista. O controle dos gastos públicos, afirma, seria mantido nos governos Lula 1 e Lula 2 (entre 2003 e 2010), mas não por sua sucessora e colega de partido.
“Ficamos com 3% do superávit primário do finalzinho de 1998 até 2012, então não é nenhuma ilusão. A gente começa esse período com a dívida/PIB na faixa de 60% e termina 2012 na faixa de 30%. Mas, aí, sabe o que acontece? Começa com D: Dilma Rousseff, nova matriz macroeconômica, começa a conversinha de que, ‘ah, isso é uma coisa neoliberal, austeridade’”
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‘Orçamento todo torto’
Um dos pais do Plano Real, Franco considera que o plano econômico resolveu bem a organização institucional do sistema monetário – mas não a organização fiscal do Brasil.
“Temos uma organização institucional ainda primitiva, um jeito de fazer o orçamento público todo torto, e aí sai sempre errado. O congresso é onde deveria haver a discussão séria sobre limites e possibilidades do país, sobre os sonhos e as possibilidades que são a tributação”, afirma. “Os políticos têm aversão à ideia de competir uns com os outros por recursos escassos. É uma realidade meio óbvia para o economista, a pessoa que vive com finanças, a escassez. Mas para eles não existe”
Próximo governo
Crítico do atual governo Lula, Franco é esperançoso sobre uma nova mentalidade no Palácio do Planalto – mesmo em caso de reeleição.
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“A partir de 1º de janeiro de 2027, é possível que a gente tenha uma nova liderança com uma nova cabeça. Ou mesmo uma velha liderança com uma nova cabeça. O debate eleitoral pode efetuar ambas as mágicas, tá? Vamos viver pra ver”
Apesar de considerar 2026 um ano pouco propenso a mudanças significativas na condução da economia, o conselheiro da Rio Bravo investimentos afirma que o período eleitoral é valioso para o debate público das ideias que serão implantadas nos próximos anos.
“É preciso que o presidente que assumir no 1º de janeiro tenha um plano de ação que responda a ansiedades que, eu espero, apareçam no debate eleitoral, e que os candidatos à presidência sejam confrontados”, afirma. “Temos ambições, nossos filhos estão ansiosos, estão muito endividados. A criança que nasce hoje, já nasce devendo 80% do PIB. O que que vai acontecer? Ela vai ter que pagar imposto para pagar essa conta, ou vai acontecer alguma coisa?”
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