(Bloomberg) — O presidente Donald Trump afirmou que a Marinha dos Estados Unidos disparou contra e apreendeu um navio de carga com bandeira iraniana no Golfo de Omã, após a embarcação ignorar avisos para parar ao deixar o Estreito de Ormuz. Trata-se do primeiro grande confronto desde o início do bloqueio, há uma semana.
“Hoje, um navio de carga com bandeira iraniana chamado TOUSKA, com quase 900 pés de comprimento e pesando quase tanto quanto um porta-aviões, tentou atravessar nosso bloqueio naval, e não terminou bem para eles”, disse Trump em publicação nas redes sociais.
Ele afirmou que um destróier norte-americano equipado com mísseis guiados ordenou que a embarcação parasse e, diante da recusa, “nosso navio da Marinha os deteve imediatamente ao abrir um buraco na casa de máquinas”. Trump disse que o navio já estava sob sanções do Departamento do Tesouro e que agora está sob posse dos EUA.
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O episódio ocorreu horas após uma troca de declarações sobre possíveis negociações de paz em Islamabad nesta semana. Trump disse ver uma oportunidade de acordo, enquanto autoridades iranianas afirmaram não haver “perspectiva clara” de entendimento. O atual cessar-fogo está previsto para terminar na terça-feira.
“Estamos oferecendo um ACORDO muito justo e razoável, e espero que eles aceitem, porque, se não aceitarem, os Estados Unidos vão destruir cada usina de energia e cada ponte no Irã”, escreveu Trump mais cedo, no domingo. “SEM MAIS BONZINHO!”
O vice-presidente JD Vance, o enviado especial Steve Witkoff e o genro do presidente, Jared Kushner, devem partir para Islamabad na noite de segunda-feira para negociações na terça, segundo um funcionário da Casa Branca.
A TV estatal iraniana, no entanto, citou um integrante da equipe de negociação do país afirmando: “Não vislumbramos uma perspectiva clara para negociações produtivas entre Irã e EUA”, além de negar qualquer plano de participação nas conversas previstas para esta semana.
“Excessos dos EUA, exigências irracionais e irreais, mudanças frequentes de posição, contradições contínuas e a manutenção do chamado bloqueio naval, considerado uma violação do acordo de cessar-fogo, juntamente com retórica ameaçadora, têm impedido o avanço das negociações. Nessas circunstâncias, não há perspectiva clara de negociações produtivas”, disse o relatório da emissora IRIB.
Enquanto isso, o Irã, que havia fechado o estreito na semana passada após reabri-lo durante o cessar-fogo, anunciou novas regras de tarifas e informou que o Parlamento trabalha em uma lei para regular o Estreito de Ormuz. Entre as medidas, está a proibição de passagem de embarcações ligadas a Israel e a exigência de autorização do Conselho Supremo de Segurança Nacional para navios de “países hostis”.
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A Casa Branca não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre a posição iraniana.
O impasse em Ormuz — por onde transitava cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo antes da guerra entre EUA, Israel e Irã — ameaça aprofundar a crise energética global e contraria a previsão de Trump de um fim rápido para o conflito.
A hidrovia é apenas um dos pontos ainda sem solução, que incluem também as capacidades nucleares do Irã e a invasão israelense em curso no Líbano. Trump afirmou que o Irã concordou em encerrar seu programa nuclear, o que foi contestado por Teerã.
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“Navios aguardam instruções das Forças Armadas do Irã para determinar se podem atravessar a rota”, informou a agência semi-oficial Mehr no domingo.
O cenário muda rapidamente. No fim de sábado, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, que liderou a delegação do país nas negociações com os EUA no início do mês no Paquistão, afirmou que, embora as divergências “permaneçam significativas”, as negociações avançam.
O bloqueio naval dos EUA permite a saída do Golfo Pérsico de navios com cargas não iranianas, mas impede a passagem de embarcações que partiram de portos do Irã, o que levou o país a fechar novamente o estreito.
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“É impossível que outros atravessem o Estreito de Ormuz enquanto nós não podemos”, disse Ghalibaf em discurso televisionado.
A Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica alertou no sábado que embarcações não devem deixar seus pontos de ancoragem no Golfo Pérsico e no Mar de Omã. Segundo o comunicado, a aproximação do estreito “será considerada cooperação com o inimigo, e a embarcação infratora será alvo”.
O Joint Maritime Information Center, grupo internacional que compartilha informações sobre rotas marítimas, relatou múltiplos ataques de forças iranianas a navios na região, além da presença de minas, classificando o nível de risco como “crítico”.
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Instabilidade
Os desdobramentos das últimas 72 horas evidenciam a natureza volátil da guerra e das negociações para encerrá-la, com declarações contraditórias de Trump e do Irã em questão de horas, continuidade dos combates israelenses no Líbano e sucessivas aberturas e fechamentos do Estreito de Ormuz por parte de Teerã.
Na sexta-feira, Trump disse que um acordo com o Irã estava praticamente fechado, incluindo concessões que Teerã nunca havia admitido publicamente, sinalizando disposição para concluir o tema e voltar a focar em questões domésticas. Ele chegou a dizer à ABC News que confiava nos iranianos, poucos dias após ameaçar destruir sua civilização.
Também surgiram sinais de desgaste no cessar-fogo no Líbano, ligado à decisão do Irã de permitir o tráfego em Ormuz. As Forças de Defesa de Israel afirmaram ter atacado “sabotadores” que se aproximavam de suas tropas em violação à trégua. Um soldado israelense morreu e três ficaram feridos.
O impulso por uma paz duradoura ganhou força no fim da semana passada, mas começou a se fragilizar no sábado, após críticas do Irã à continuidade do bloqueio americano.
A Marinha britânica informou que um petroleiro foi abordado por lanchas armadas da Guarda Revolucionária antes de ser alvo de disparos no sábado, acrescentando que a embarcação e sua tripulação estavam seguras. Em outro incidente, um navio porta-contêineres foi atingido por um projétil desconhecido na costa de Omã. A Índia também afirmou que seus navios foram alvo de tiros.
O dólar indicava alta frente a outras moedas importantes, com investidores buscando ativos de proteção no início das negociações asiáticas de segunda-feira. O dólar australiano liderava as perdas entre moedas sensíveis ao risco.
Os preços do petróleo, combustíveis e gás natural haviam recuado na sexta-feira diante da expectativa de que os últimos desdobramentos pudessem levar ao fim da guerra e à normalização do fluxo energético por Ormuz. O Brent caiu 9%, para cerca de US$ 90 o barril. Os preços do diesel nos EUA e na Europa também recuaram.
Com a colaboração de Valentine Baldassari, Patrick Sykes, Eltaf Najafizada, Dan Williams, Weilun Soon, Sara Gharaibeh e Omar Tamo.
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