A disputa presidencial de 2026 pode impor a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) um desafio diferente daquele enfrentado por seu pai na eleição de 2018. Se há oito anos Jair Bolsonaro conseguiu chegar ao Palácio do Planalto impulsionado principalmente pelo sentimento de rejeição ao PT e pelo discurso anticorrupção, o cenário atual exige algo mais concreto dos candidatos que disputam o poder.

A avaliação é da cientista política Lara Mesquita, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), para quem o principal obstáculo da candidatura de Flávio não está apenas em superar a vantagem da máquina pública ou enfrentar um presidente em busca da reeleição. O desafio será apresentar ao eleitor um projeto de governo capaz de responder às preocupações econômicas e sociais dos próximos anos.

“Agora o governo Flávio tem que ter uma agenda. Ele vai sofrer com essa falta de controle do orçamento. Diferente do que aconteceu lá atrás. Diferente do que aconteceu no governo Bolsonaro. Vai ter que apresentar qual é o meu plano. Qual é o meu plano na economia? Qual é o meu plano na saúde? Na segurança pública? Vai ter que trazer uma agenda. Esse é o principal desafio para quem desafia o governo”, afirmou durante o Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, desta sexta-feira (5).

A observação parte de uma mudança estrutural na política brasileira. Desde o governo Bolsonaro, o Congresso ampliou significativamente seu poder sobre o Orçamento por meio das emendas parlamentares, reduzindo a capacidade de ação do Executivo e tornando mais difícil prometer soluções rápidas para problemas complexos.

O desafio de quem está fora do governo

Para Lara, há uma diferença importante entre a posição ocupada hoje por Lula e a de Flávio Bolsonaro. Enquanto o presidente pode apresentar programas, políticas públicas e resultados de governo para sustentar sua candidatura, o senador precisa convencer o eleitor de que seria capaz de administrar um cenário econômico e político cada vez mais complexo.

“Quem governa parte de uma vantagem natural. Normalmente a gente brinca que o governo perde a eleição. É muito difícil o adversário ganhar. O governo é o favorito porque ele está controlando a máquina, porque ele teve a chance de passar quatro anos em evidência construindo a sua reputação, entregando benefícios”, afirmou.

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Segundo ela, a lógica eleitoral tende a favorecer quem já está no poder quando a percepção econômica é positiva ou, ao menos, não representa uma fonte de grande insatisfação popular.

“Se está tudo bem, é muito difícil você falar: vou trocar esse governo que está indo bem para apostar em algo incerto.”

O peso da economia

A análise dos especialistas é que a economia continuará sendo o principal critério de avaliação do eleitorado.

Lara destaca que estudos da ciência política e da economia eleitoral mostram que a percepção dos meses imediatamente anteriores à eleição costuma ter peso desproporcional na decisão do voto.

“A gente tem vários estudos que mostram que o mais importante é essa percepção nos últimos seis meses antes da eleição. Isso a gente tem estudos da economia política, da ciência política, da economia que mostram que a memória do eleitor é de curto prazo quando diz respeito à economia”, afirmou.

Segundo ela, isso ajuda a explicar a estratégia do governo de concentrar esforços em medidas voltadas para renda, crédito e consumo às vésperas da campanha.

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Mas também aumenta a pressão sobre a oposição para apresentar alternativas. Se o eleitor avaliar que sua situação econômica melhorou, Flávio precisará oferecer uma proposta capaz de justificar a troca de governo.

Segurança pode não ser suficiente

Embora a segurança pública continue sendo uma das principais bandeiras da direita e apareça entre os temas de maior preocupação dos brasileiros, os analistas avaliam que ela dificilmente será suficiente para sustentar uma candidatura presidencial competitiva.

A percepção é que a eleição de 2026 tende a ser decidida por uma combinação de fatores econômicos, sociais e fiscais. Nesse contexto, a capacidade de apresentar um plano para crescimento, emprego, inflação e contas públicas pode se tornar tão importante quanto os debates sobre criminalidade e combate ao crime organizado.

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Para Lara, esse é justamente o ponto que diferencia a eleição atual da disputa vencida por Jair Bolsonaro em 2018. Naquele momento, o ambiente político era dominado pelo desgaste do sistema político tradicional e pelos efeitos da Operação Lava Jato. Hoje, a discussão passa cada vez mais pela capacidade de governar.

E é nessa área que, segundo os especialistas, a candidatura de Flávio Bolsonaro ainda precisa mostrar ao eleitor o que pretende fazer caso chegue ao Palácio do Planalto.

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Produzido e/ou adaptado por Equipe Tretas & Resenhas, com informações da fonte.

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