
A queda de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas eleitorais recentes acendeu um alerta amarelo na campanha do senador não apenas pela perda numérica ligeiramente maior do que o esperado na última rodada do levantamento da Quaest, desta semana, mas pelo perfil dos eleitores que deixaram de apoiá-lo.
Para participantes do Mapa de Risco desta sexta-feira (12), programa de política do InfoMoney, o desgaste provocado pelo caso Banco Master atingiu justamente um dos segmentos mais valiosos na disputa eleitoral de 2026, os eleitores moderados e menos identificados com a polarização política.
A avaliação feita pelos analistas é de que a desidratação da candidatura ocorreu principalmente entre eleitores independentes, que rejeitam tanto Lula (PT) quanto o bolsonarismo mais radical e costumam definir eleições apertadas.
“A desidratação aconteceu, mas esse eleitor não migrou para outras alternativas da direita. Isso sinaliza um caminho que, se ele for bem-sucedido em se projetar ao centro, é possível recuperar terreno”, afirmou Bárbara Baião, analista de política da XP.
Segundo ela, os movimentos observados nas pesquisas sugerem que a candidatura não sofreu uma ruptura com sua base mais fiel. O problema está justamente entre os eleitores que ainda estavam avaliando suas opções para 2026 e que tendem a ser mais sensíveis a episódios de desgaste político.
A base se mantém
Desde que foi ungido por Jair Bolsonaro como seu herdeiro político, Flávio construiu seu crescimento apoiado na transferência direta de votos d ex-presidente. A estratégia permitiu que o senador se saísse rapidamente de um cenário de ampla desvantagem para uma disputa próxima de Lula em diversos levantamentos.
Mas, segundo o cientista político e CEO da Idealpolitik, Leopoldo Vieira, parte da leitura feita pelo mercado e pelos analistas sobre o avanço pode ter sido equivocada.
“Uma avaliação muito recorrente era que ele teria feito uma sinalização ao centro e por isso teria emparelhado com Lula. A minha avaliação sempre discordou disso. Sempre considerei que ele cresceu rapidamente por conta da polarização e pela transferência de votos do pai dele”, afirmou.
Na visão dele, a aproximação de Flávio em relação a Lula ocorreu muito mais pela consolidação do eleitorado de direita do que por uma conquista efetiva de setores moderados. Agora, o senador enfrenta uma etapa diferente da campanha.
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O novo desafio
Se a herança política de Jair Bolsonaro foi suficiente para transformar Flávio em um candidato competitivo contra o atual presidente, ela pode não ser suficiente para levá-lo à vitória.
A avaliação dos especialistas é que o próximo passo exige justamente aquilo que ainda não foi plenamente testado pela campanha, a capacidade de dialogar com eleitores que não fazem parte do núcleo bolsonarista.
“O desafio passa a ser outro. Não é mais consolidar a direita. Isso ele já fez. Agora é convencer um eleitor que não é bolsonarista a votar nele”, resumiu Bárbara.
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Essa tarefa se torna ainda mais complexa porque o grupo que abandonou a candidatura tende a ser menos ideológico e mais sensível a temas como corrupção, estabilidade institucional, economia e previsibilidade. São eleitores que costumam migrar com mais facilidade diante de crises políticas.
Nem Lula, nem Bolsonaro
Os analistas destacam que esse segmento ocupa uma posição peculiar na disputa. De um lado, rejeita o governo Lula e demonstra resistência a uma nova administração petista. De outro, também não se identifica integralmente com o bolsonarismo mais radical. É justamente por isso que se tornou tão importante para a eleição.
“Você precisa, ao mesmo tempo, mobilizar uma base mais radicalizada e agregar um percentual decisivo de votos em um eleitorado que rejeita exatamente esse tipo de sinalização”, observou Leopoldo Vieira.
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Segundo ele, essa é uma dificuldade que acompanha praticamente todas as candidaturas competitivas da direita desde a redemocratização. Ao buscar o centro, corre-se o risco de desmobilizar a base. Ao reforçar a identidade ideológica, torna-se mais difícil conquistar novos eleitores.
A próxima fase da campanha
É por isso que a campanha de Flávio vem tentando ampliar o espaço dedicado a temas econômicos, propostas de governo e agendas consideradas menos polarizadoras. A aposta é que a recuperação do eleitor moderado dependerá menos de discursos voltados à militância e mais da construção de uma imagem presidencial.
Para Bárbara Baião, os dados atuais mostram que esse caminho continua aberto. O eleitor que saiu da candidatura não migrou em massa para Lula nem para outros candidatos da direita. Em grande medida, ele voltou para a indecisão.
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Isso significa que ainda existe espaço para reconquista. Mas também indica que a disputa entrou em uma nova fase. A partir de agora, o principal desafio de Flávio Bolsonaro talvez não seja mais herdar os votos do pai. É convencer um eleitor que nunca foi bolsonarista a enxergá-lo como presidente.
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