João Bosco lança em 3 de julho álbum gravado ao vivo com a NDR BigBand em julho de 2025, com arranjos e regências do trombonista Rafael Rocha
Reprodução / Encarte da edição em CD do álbum ‘Horda’
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Horda
Artistas: João Bosco & NDR BigBand – com regência de Rafael Costa
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ Dois álbuns celebram os 80 anos que João Bosco completará em 13 de julho, sendo que um deles, “Amigos novos e antigos – João Bosco 80 anos”, ainda está em processo de produção com feats do cantor com nomes de diferentes gerações e estilos.
Dez dias antes do 80º aniversário, o artista lança em 3 de julho o primeiro disco comemorativo da efeméride, “Horda”, gravado ao vivo em Hamburgo, em julho de 2025, com a orquestra alemã de jazz NDR BigBand.
Com capa que expõe pintura de Joachim Kühn, obra de 1999, o álbum “Horda” ganha edição em CD na Europa e na Ásia via Enja Records, a mesma gravadora que, há 18 anos, lançou o primeiro álbum de Bosco com a big band alemã, “Senhoras do Amazonas” (2008).
No Brasil, o exuberante álbum “Horda” estará disponível somente em edição digital com 12 faixas que expõem o som que Bosco apropriadamente conceitua como afro-jazz-brasileiro.
Com mais de sete e minutos e meio, a abordagem da música-título “Horda” (João Bosco e Francisco Bosco, 2020) exemplifica – entre síncopes, tempos de delicadeza e sobressaltos que evocam os ruídos de uma multidão – a simbiose entre o toque jazzístico da orquestra e o cancioneiro de Bosco, pautado pelo amálgama da ginga carioca do samba com a arquitetura barroca dos sons das Geraes – fonte natural para o artista mineiro que veio ao mundo em Ponte Nova (MG) em 13 de maio de 1946 – e pelas tradições musicais enraizadas em solo africano.
A swingueira do som do álbum “Horda” salta aos ouvidos já na primeira faixa, “Abricó de macaco” (João Bosco e Francisco Bosco, 2020).
Contribui para a perfeição do álbum o fato de, pela primeira vez, a NDR BigBand ter sido conduzida por um maestro brasileiro, o trombonista Rafael Rocha, responsável por arranjos e regências que dão novos sopros de vida ao cancioneiro de Bosco com o toque dessa grande orquestra formada por seis trombonistas (Dan Gottshall, Klaus Heidenreich, Sebastian Hoffmann, Lisa Stick, Stefan Lottermann e Ingo Lahme), seis saxofonistas (Fiete Felsch, Peter Bolte, Nigel Hitchcock, Frank Delle. Daniel Buch e Konstantin Herleinsberger) e um naipe de trompetistas (Martijn de Laat, Ingolf Burkhardt, Claus Stötter e Johannes Knoll).
À swingueira dos metais, aliam-se a atenta marcação da bateria do músico convidado Kiko Freitas, o toque percussivo do violão do próprio Bosco – instrumento que por si só parece abarcar o sentimento e o suingue do mundo – e o piano jazzístico de Florian Weber, sobressalente na introdução de “Incompatibilidade de gênios” (João Bosco e Aldir Blanc, 1976) antes de o samba cair no suingue de gravação que inclui passagens jazzísticas ao longo dos mais de sete minutos.
Sim, “Horda” é álbum com faixas de longa duração – geralmente em torno dos sete minutos – que exige fruição atenta para ser saboreado em toda a extensão da obra que inclui flerte com o universo da música erudita no prelúdio que antecede “Sinhá” (João Bosco e Chico Buarque, 2011) no toque do piano do já mencionado Florian Weber.
“Este álbum também é uma homenagem aos grandes criadores de grooves inesquecíveis. Miles Davis, John Coltrane, João Gilberto e Tom Jobim…”, sintetiza Bosco em fala inserida no texto escrito para o encarte do álbum.
A fala faz todo sentido quando se ouve em “Horda” a primeira regravação de “Samba sonhado” (João Bosco e Francisco Bosco, 2024), tema composto com inspiração na bossa definidora de João Gilberto (1931 – 2019). Mas cabe ressaltar que o álbum “Horda” oferece samba com jazz, mas não o samba-jazz que proliferou nas boates carioca dos anos 1960, derivado da bossa nova.
Acima de rótulos limitadores, o que impressiona é a maneira como músicas como “Holofotes” (João Bosco, Antonio Cicero e Waly Salomão, 1990) se revitalizam no universo jazzístico de “Horda” sem anular o balanço da bossa particular de João Bosco.
Mas nem tudo cai no suingue. “Transversal do tempo” (João Bosco e Aldir Blanc, 1976) ressurge como balada jazzística de tempos mais serenos em arquitetura similar à da abordagem de “Caça à raposa” (João Bosco e Aldir Blanc, 1974), esta feita com a devida tensão dessa canção de resistência em que o artista tingiu o verde da floresta com as dores do coração vermelho que sangrava em época de ditadura.
Música que batizou álbum lançado pelo cantor e compositor há nove anos com repertório inédito, a gravação de “Mano que zuera” (João Bosco e Aldir Blanc, 2017) reforça no arranjo a sensação de aglomeração recorrente em “Horda”.
Já “Cabeça de nego” (João Bosco e Aldir Blanc, 1986) – composição que há 40 anos deu nome a outro álbum de Bosco – transita entre o samba e o jongo com o gagabirô típico do artista brasileiro, sinalizando que a identidade da obra de Bosco jamais sucumbe face à excelência imponente do toque da NDR BigBand. Ao contrário. A música de Bosco potencializa a força da orquestra e vice-versa.
Na costura do repertório do álbum “Horda”, “Cabeça de nego” aparece sagazmente ao lado de “Água, mãe água” (João Bosco, 1994) porque, nas duas músicas, o artista puxa o fio de meada que, na onda que balança, deságua na figura matricial de Clementina de Jesus (1901 – 1987) e no som seminal de Pixinguinha (1897 – 1973), elos do Brasil com a África que embasa a obra de João Bosco nessa exuberante fricção com a NDR BigBand que dá outros sopros de vida a um cancioneiro que atravessou 54 dos 80 anos de vida do artista – tomando como ponto de partida a projeção nacional do cantor mineiro em 1972 – com extrema coerência e alta qualidade.
Capa do álbum ‘Horda’, de João Bosco & NDR BigBand com regências de Rafael Rocha
Pintura de Joachim Kühn

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Produzido e/ou adaptado por Equipe Tretas & Resenhas, com informações da fonte.

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