A falta de candidaturas presidenciais competitivas fora da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) não decorre apenas da dificuldade de novos nomes conquistarem o eleitorado. Para a CEO do Instituto Ideia, Cila Schulman, os próprios partidos perderam parte do interesse estratégico pela disputa pelo Palácio do Planalto.

Durante participação no Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, Cila afirmou que as legendas passaram a concentrar energia e recursos nas eleições para a Câmara dos Deputados e o Senado. A mudança estaria ligada ao fortalecimento do Legislativo no controle do Orçamento e ao modelo de distribuição dos fundos partidário e eleitoral.

“Os partidos perderam interesse pela campanha presidencial. Esse é o fato, e é isso que a gente está vendo com relação à falta de oferta de candidatos. Você tem um eleitorado à procura de um candidato, mas não tem a oferta. E, quando tem a oferta, você não tem nenhum apoio, como é o caso de certos candidatos que não têm apoio nem do próprio partido”, disse.

Segundo a pesquisadora, a lógica partidária mudou à medida que o Congresso ganhou mais poder sobre a execução de políticas públicas e sobre a distribuição de recursos do Orçamento.

“O poder passou para o Legislativo, em termos financeiros mesmo. Quem hoje tem os recursos e toma decisões sobre políticas públicas é o Legislativo. Você tem o ponto das emendas e ainda tem a questão de que o fundo partidário e o fundo eleitoral são baseados no tamanho da bancada de deputados federais. É nisso que os partidos investem neste momento”, afirmou.

A avaliação ajuda a explicar por que, mesmo às vésperas do início oficial da campanha, candidatos posicionados como alternativas a Lula e Flávio continuam com pouco apoio nacional e dificuldades para construir alianças.

Governadores como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) mantêm maior presença em seus próprios estados, enquanto Renan Santos (Missão) concentra parte relevante de sua força nas redes sociais. Nenhum deles, porém, apareceu até agora com dois dígitos nas pesquisas citadas durante o programa.

Para Cila, o quadro produz uma contradição. Há eleitores insatisfeitos com os dois principais candidatos, mas não existe uma alternativa consolidada capaz de absorver esse descontentamento.

“Você tem um eleitorado à procura de um candidato, mas não tem a oferta”, resumiu.

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A baixa disposição dos partidos para disputar a Presidência também aparece nas negociações em torno da chapa de Flávio Bolsonaro. A poucos dias da convenção do PL, a candidatura ainda enfrentava dificuldades para definir um vice e atrair formalmente partidos do Centrão.

A analista de política da XP, Bárbara Baião, afirmou que, quando a candidatura de Flávio foi lançada, havia uma expectativa de que a Federação União Progressista pudesse integrar a chapa. O cenário, porém, mudou após a sucessão de crises enfrentadas pelo senador.

“Existe ainda uma negociação em curso com o Republicanos. A preferência do Flávio é colocar a ex-presidente da Caixa Daniela Marques, que já vem ocupando um espaço de porta-voz em assuntos econômicos e também mirando o eleitorado feminino. Mas há muita resistência do partido em abraçar oficialmente o projeto”, afirmou.

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Na avaliação de Cila, o desinteresse partidário ajuda a afastar também o eleitor da campanha. Sem mobilização das legendas, alianças nacionais ou discussão de propostas, a disputa presidencial permanece restrita à rejeição aos dois polos.

“Como é que o eleitor vai estar engajado se nem os partidos estão engajados nesse tema?”, questionou.

A pesquisadora também chamou atenção para a ausência de projetos claros apresentados pelos principais candidatos.

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“É uma eleição em que eu não estou vendo até agora ninguém falar de projeto. Você não tem projeto de nenhum lado, não tem ninguém discutindo um plano de Brasil. O eleitor vota em uma utopia desejável, ele quer ver alguma coisa para frente, quer ver um sonho. Ele não quer votar só na negação do outro, e isso eu não estou vendo de nenhum dos lados”, afirmou.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.

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Produzido e/ou adaptado por Equipe Tretas & Resenhas, com informações da fonte.

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