A Oncoclínicas (ONCO3) confirmou na noite de domingo a assinatura de um termo de compromisso não vinculante com a Porto Seguro (PSSA3) para a constituição de uma empresa. A seguradora deve injetar R$ 500 milhões na prestadora de serviços médicos e subscrevendo um determinado número de ações ordinárias que representem o controle do capital votante da nova companhia, detendo um mínimo de 30% do capital social.
As ações da ONCO3 tiveram uma sessão de forte volatilidade nesta segunda-feira (16), chegando a uma máxima de R$ 2,14, ou alta de 15,68%, mas fechando com leve queda de 0,54%, a R$ 1,84. Já o papel da Porto fechou em baixa de 4%, a R$ 47,34.
O Goldman Sachs avalia que a operação reduziria a alavancagem da Oncoclínicas e teria mérito estratégico, uma vez que a companhia tem enfrentado dificuldades para gerar fluxo de caixa orgânico nos últimos trimestres, com a dívida líquida aumentando cerca de R$ 1 bilhão em 2025, desconsiderando o aumento de capital líquido de R$ 1,2 bilhão concluído em novembro de 2025.
Viva do lucro de grandes empresas
Mesmo após essa capitalização, o banco considera que o balanço ainda pesado da empresa — com alavancagem projetada em 3,3 vezes dívida líquida sobre EBITDA ajustado para 2026, considerando passivos de arrendamento — e a tendência desafiadora de geração de caixa seguem sendo as principais preocupações da tese de investimento.
Mantidas as demais condições, o acordo reduziria a relação dívida líquida/EBITDA projetada para 2026 em 0,46 ponto, para 2,9 vezes, considerando apenas o investimento em capital. Em um cenário em que a debênture conversível fosse totalmente convertida em ações até o fim de 2026, a alavancagem cairia 0,92 ponto, para 2,4 vezes.
O banco também vê mérito estratégico na operação, que aprofundaria a relação com um parceiro comercial relevante. As duas empresas já operam em parceria desde 2022 em um modelo integrado de cuidado para pacientes com câncer.
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Desde então, a participação da Porto Saúde na base de clientes da Oncoclínicas tem aumentado de forma constante, representando atualmente cerca de 8% da receita bruta dos últimos 12 meses até o terceiro trimestre de 2025.
Na avaliação do Goldman Sachs, a transação é positiva do ponto de vista estratégico, já que a Porto Saúde está entre as operadoras que apresentam métricas operacionais mais saudáveis. A elevada exposição a pagadores com situação financeira fragilizada vinha sendo um fator de pressão para a Oncoclínicas.
Caso o acordo avance, o Goldman Sachs entende que a companhia estaria priorizando pagadores de maior qualidade, o que poderia melhorar a conversão de EBITDA em fluxo de caixa para o acionista no futuro.
Já o Bradesco BBI vê o anúncio como misto a negativo. A avaliação implícita da nova companhia (que pode não assumir 100% da dívida líquida da ONCO) de até R$ 1,67 bilhão em valor patrimonial representa um desconto de 20% em relação à capitalização de mercado atual da ONCO3 e de 47% em relação ao valor justo para o final de 2026.
Segundo o BBI, o principal aspecto positivo é a melhoria na governança corporativa, com a Porto assumindo o controle. A redução da alavancagem decorrente da injeção de capital de R$ 500 milhões é relativamente pequena: 18%, para R$ 2,36 bilhões, ou 3,5 vezes o EBITDA anualizado do 3º trimestre de 2025, excluindo IFRS 16 (R$ 167 milhões).
O BBI ainda destaca que a Oncoclínicas e a Porto firmaram uma joint venture 60/40 em dezembro de 2022. A PSSA é uma das principais pagadoras da ONCO, representando de 7 a 8% das receitas.
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Na avaliação do JPMorgan, a eventual diligência pendente estaria relacionada, entre outros pontos, ao reprofilamento da dívida da Oncoclínicas e à discussão de cláusula de poison pill. Na transação relatada, a Oncoclínicas separaria seus cerca de 200 clientes ambulatoriais focados em infusões oncológicas em uma subsidiária independente, onde a Porto faria a injeção de capital e teria a dívida conversível.
Ao mesmo tempo, credores da Oncoclínicas poderiam migrar seus créditos — cujos termos não foram detalhados — para essa nova entidade, que excluiria hospitais, centros de câncer e o investimento na Arábia Saudita.
Para a Porto, a avaliação do JPMorgan é neutra. Na visão da instituição, o movimento pode significar três coisas. Primeiro, reforçar a estrutura de capital de um parceiro, lembrando que a Porto mantém uma joint venture com a Oncoclínicas, na qual 40% do resultado flui de volta para a divisão de saúde da seguradora. Segundo, estimular a concorrência no sistema de saúde ao apoiar um operador independente, já que movimentos de consolidação entre concorrentes aumentam a pressão competitiva. Terceiro, gerar retorno financeiro, uma vez que a Porto provavelmente só avançaria com o investimento se a avaliação da empresa fizer sentido, o que explica a condição de reprofilamento da dívida antes de qualquer acordo.
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No pior cenário, o JPMorgan não acredita que a perda da Oncoclínicas como parceira representaria grande pressão sobre os custos de sinistros de saúde da Porto. Reportagens mencionam cerca de R$ 500 milhões por ano em pagamentos de sinistros à Oncoclínicas, o equivalente a aproximadamente 8% dos sinistros da seguradora.
Como contexto adicional, o banco lembra que a Porto planeja realizar um IPO (oferta pública inicial de ações) de sua divisão de saúde. A unidade registrou lucro de cerca de R$ 581 milhões em 2025 e o crescimento da receita já atingiu o pico, com orientação de prêmios entre 14% e 22% para 2026, após avanço de 29% em 2025. Atualmente, as ações da Porto são negociadas a cerca de 8,7 vezes o lucro. Embora a notícia esteja relacionada ao segmento de saúde, o JPMorgan avalia que o principal tema competitivo para a companhia segue sendo o mercado de seguros de automóveis.
No caso da Oncoclínicas, uma parceria mais ampla com a Porto surge como surpresa. A nomeação de Camille Faria para o cargo de diretora financeira indicava um processo amplo de reestruturação da dívida e corporativa, possivelmente com aumento de capital adicional, mas sem necessariamente a entrada de um novo parceiro. No entanto, a Oncoclínicas anunciou a renúncia de Faria do cargo.
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Independentemente disso, o banco avalia que diante do déficit de caixa provocado pela perda de depósitos após a liquidação do Banco Master na Oncoclínicas, o anúncio pode ser visto como potencialmente positivo para a companhia no curto prazo, ao reduzir riscos de continuidade operacional. Ainda assim, há pouca visibilidade sobre o eventual reprofilamento da dívida ou a migração para a nova subsidiária mencionada, ponto considerado essencial para avaliar os impactos sobre o valor das ações, já que a maior parte da dívida está concentrada na holding.
Mesmo com essas incertezas, o JPMorgan destaca que a possibilidade da Oncoclínicas receber novo capital de um parceiro do setor, reforçando a continuidade do negócio, tende a ser interpretada de forma positiva pelo mercado.
O JPMorgan reiterou classificação overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra) para Porto, com preço-alvo de R$ 57. O banco manteve recomendação underweight (exposição abaixo da média do mercado, equivalente à venda) para Oncoclínicas, mas incluiu a empresa em sua lista de monitoramento de catalisadores positivos, diante de possíveis notícias relacionadas ao reprofilamento da dívida e à reestruturação corporativa.
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O BBI também reiterou classificação de venda para Oncoclínicas, com preço-alvo de R$ 2,80.
Já o Goldman Sachs manteve recomendação neutra para as ações da Oncoclínicas, com preço-alvo de R$ 3,50.
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