
Entenda a briga da Ceia, ex-gravadora de Djonga e outros rappers
“Todos que tenham a mesma fome, todos que tenham a mesma sede, sentem-se à mesa”. Esse era o lema da Ceia Ent., coletivo de rap nascido em 2016 e que gerenciava a carreira de nomes como Djonga, Tasha & Tracie, Kyan, Febem e Clara Lima.
Fundada por Don Cesão e Nicole Balestro, a empresa chegou ao fim em 2023 e deixou um rastro de polêmicas envolvendo direitos autorais, além de processos na Justiça por calúnia e difamação.
Dez anos depois da sua fundação, a empresa voltou a ser assunto por conta de uma sequência de diss tracks, músicas feitas com a intenção de atacar alguém.
No dia 13 de março, Don Cesão lançou “Doze Judas Na Minha Ceia”, citando o fim da produtora e suas brigas com os artistas. Na última terça-feira (7), Clara Lima respondeu com “O Que Me Diss Respeito”, com tréplica saindo 24h depois.
Abaixo, o g1 explica a ascensão, queda e todas as confusões atuais envolvendo a Ceia:
Todos na mesa
A Ceia nasceu com um modelo de negócios inovador: a empresa e os artistas não teriam contratos. Os acordos sobre divisão de lucro eram verbais, com uma divisão de 90% dos resultados indo para o bolso dos artistas e 10% para a Ceia.
Inicialmente, Don Cesão trabalhava como uma espécie de “caça-talentos”, buscando novos nomes do rap pelo Brasil, sendo ele mesmo um rapper que chegou a integrar o coletivo Damassaclan. Ficava para sua então esposa, Nicole Balestro, as questões burocráticas.
Nicole também tinha um histórico ligado ao rap, tendo trabalhado em festas de rap em São Paulo e atuado como produtora na equipe de Flora Matos.
Também chamava a atenção do mercado a maneira como a produtora atuava em parceria no mercado publicitário. Empresas como Budweiser, Adidas e Itaú fecharam campanhas com artistas do selo.
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O auge
Durante três anos, a Ceia se colocou como o principal selo do segmento. O carro-chefe da empresa era Djonga, vindo de Belo Horizonte (MG) e que durante seu período na empresa, era um dos rappers mais ouvidos do país.
Tasha & Tracie passaram de revelação para dupla de destaque – hoje têm na carreira passagens por festivais como o Lollapalooza Brasil.
Vindo da Praia Grande, no litoral de São Paulo, Kyan era a grande revelação do trap nacional.
Integrantes do coletivo Ceia em estúdio
Reprodução/Instagram
Entre 2017 e 2022, os artistas da Ceia rodavam o Brasil, fechavam publicidades e figuravam entre os grandes nomes da cultura hip-hop. A ideia que a empresa passava para o público era de um coletivo familiar, onde um ajudava o outro. Mas toda família tem seus problemas…
A queda
Em março de 2023, após uma série de acusações nas redes sociais e a debandada de artistas, Don Cesão postou um vídeo em seu Instagram anunciando o fim da Ceia.
Pelo lado dos artistas, a reclamação geral era sobre a falta de prestação de contas por parte dos empresários e a dificuldade de entender seus direitos sobre os fonogramas.
Já Don Cesão e Nicole diziam que a Ceia até tinha problemas burocráticos, mas todas as prestações de conta foram feitas. Eles diziam que a falta de um contrato gerou mais problemas do que soluções.
O mais vocal sobre sua saída foi Djonga. Na época, ele criticou a falta de estrutura burocrática na empresa e disse que, mesmo sem contrato, precisou de um acordo para comprar sua parte dos fonogramas.
O g1 apurou que a negociação mais tensa sobre como ficariam os direitos sobre as músicas foi com relação a Djonga.
“NU” e ”Histórias do Meu Lugar”, os dois últimos álbuns do rapper feitos na Ceia, foram comprados pelo artista junto à produtora por cerca de R$ 300 mil.
No entanto, os fonogramas dos três primeiros álbuns de Djonga, “Heresia”, “O Menino Que Queria Ser Deus” e “Ladrão”, estavam vinculados a Don Cesão. O empresário vendeu o catálogo para Rodrigo Oliveira, dono da produtora GR6, e Rodrigo revendeu as obras para Djonga, sob condições de pagamento mais tranquilas.
A empresária Nicole Balestro e o rapper Kyan
Reprodução/Instagram
Brigas na Justiça
O g1 entrou em contato com todos os envolvidos citados na matéria. Nenhum artista processou a Ceia como empresa, mas quatro deles processam sua ex-empresária, Nicole Balestro
Ao todo, são quatro processos: Kyan, Djonga, e as irmãs Tasha e Tracie, em conjunto, processaram Nicole na esfera criminal por crimes contra a honra, e os quatro abriram um processo por calúnia e difamação na esfera cível.
Em julho de 2025, Nicole Balestro publicou uma série de stories no seu Instagram, afirmando que Djonga, Kyan, Tasha e Tracie ainda deviam quantias a ela, em valores que, segundo ela, variam entre R$ 200 e R$ 600 mil. Os artistas negam e dizem que a empresária mente.
No caso de Kyan, Nicole afirmou que alugou um carro em seu nome e repassou o veículo para que o artista utilizasse no dia a dia. O rapper teria sofrido um acidente grave e o carro deu perda total.
A empresa responsável pelo aluguel do carro processa Nicole. Ela diz que Kyan estava na direção do veículo. Ele nega.
Já com relação a Djonga, a ex-empresária disse nas redes sociais que arcou com uma dívida que seria do artista, relacionada a um adiantamento de contrato com a agregadora Altafonte.
Sobre Tasha e Tracie, Nicole afirmou que as gêmeas fizeram processos estéticos pagos pela empresária.
Os processos envolvendo os quatro artistas e a empresária correm em segredo de Justiça.
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