Antes de viver ‘Helga’ em Três Graças, Kelzy Ecard enfrentou câncer agressivo
A alemã Helga é dura, fria, com comportamentos que beiram a psicopatia. Matou três maridos, desenvolvendo o que considera, hoje, sua maior habilidade: sumir com corpos. Do outro lado, Martha, uma mulher beirando os setenta anos, tenta encontrar na presença da filha lembranças perdidas pelo declínio cognitivo motivado pelo Alzheimer.
Essas duas mulheres são, hoje, as personalidades com quem a atriz Kelzy Ecard divide suas horas diárias. Helga, vilã da novela Três Graças (TV Globo), é um alívio cômico, enquanto, no teatro, Martha conecta a artista a um lugar mais profundo.
Kelzy descobriu um câncer de mama enquanto tomava banho no quarto de hospital onde o filho, Pedro, estava internado. Ao se ensaboar, sentiu um nódulo na mama que nunca havia percebido. O médico de Pedro, com quem Kelzy também costumava se consultar, apareceu no quarto pouco tempo depois.
“Doutor, estou com câncer e, provavelmente, com metástase”, ela disse.
Kelzy Ecard, a Helga de ‘Três Graças’
Cláudia Brandão/Arquivo Pessoal
O médico acompanha a família há anos. Relativizou a fala, já que Kelzy parecia bem, apesar da assombrosa pandemia de coronavírus que desbloqueava medos escondidos. Talvez, a hipérbole tivesse causa e razão, uma doença grave acometendo o filho enquanto o mundo se enfiava dentro de casa. Faria sentido.
Mas, como manda o protocolo, recomendou a investigação para descartar suspeitas. Kelzy se consultou com um mastologista renomado –quiçá um dos melhores do país, segundo ela. Ao examiná-la, apenas apalpando o nódulo, ele já tinha suspeitas que restringiam as possibilidades de diagnóstico.
“Kelzy, são 50 anos de profissão. Espero estar errado, mas me parece maligno. Há duas possibilidades. Vamos torcer para que seja uma delas; nosso caminho será menos atribulado.”
As desconfianças eram os subtipos HER2 positivo ou triplo negativo, dois perfis biológicos considerados mais agressivos no câncer de mama. No primeiro, as células tumorais produzem em excesso a proteína HER2, um receptor que estimula o crescimento celular e acelera a multiplicação do tumor.
No segundo, chamado triplo negativo, o câncer não apresenta receptores de estrogênio, progesterona nem HER2, o que o torna menos responsivo às terapias hormonais e às drogas-alvo tradicionais.
Começou, então, a insegurança da incerteza. Sem saber o que havia ali, embora soubesse que ali havia algo, não era possível montar uma estratégia de tratamento.

Cláudia Brandão/Arquivo Pessoal
Os exames que confirmaram o diagnóstico foram dolorosíssimos, porque uma inflamação local rodeava todo o nódulo. Biópsia, mamografia, ultrassom. Todos os toques na mama, por mais delicados e leves que fossem, pareciam facas perfurando a pele.
O laudo confirmou a suspeita do médico. Kelzy Ecard tinha câncer de mama do subtipo HER2 positivo.
Durante décadas, esse perfil esteve associado a tumores de crescimento rápido e maior risco de disseminação. Hoje, é também um dos subtipos com terapias mais específicas disponíveis. O excesso da proteína HER2, que acelera a multiplicação das células tumorais, se tornou alvo direto de medicamentos capazes de bloqueá-la, reduzindo a chance de progressão e aumentando as taxas de resposta completa ao tratamento.
O câncer estava em estágio três, com linfonodo axilar comprometido —sinal de que as células já haviam ultrapassado a mama e alcançado a primeira estação de drenagem linfática. Ainda assim, havia um protocolo claro: quimioterapia antes da cirurgia para reduzir a doença, avaliar a resposta e, depois, operar.
Como malabarista, Kelzy Ecard equilibrava os cuidados com o filho e as novas formas de trabalho em isolamento social —e, dali em diante, mais um prato giraria: um tratamento longo e agressivo.
Começou com quatro ciclos da chamada quimioterapia vermelha, mais intensa e potencialmente cardiotóxica. Vieram depois doze sessões da branca, associadas à imunoterapia anti-HER2. A meta era alcançar o que os oncologistas chamam de resposta patológica completa, quando, ao retirar o tumor, quase não restam células malignas viáveis.
Enquanto esses pratos cambaleavam, a atriz enfrentava outro dilema: contar ou não à mãe sobre o diagnóstico. A internação do neto já havia sido um baque suficientemente grande, e talvez fazê-la lidar com um segundo caso grave de doença no núcleo familiar não fosse uma boa ideia.
Marly tem noventa e cinco anos e mora no interior do Rio de Janeiro. Desde sempre e até hoje –embora hoje menos que antes–, pinta quadros belíssimos, tendo pendurado alguns deles pelas paredes de casa ao passar das décadas.
A distância –Kelzy mora na capital– espaça os encontros. Só que forçar o espaçamento até o fim de um tratamento longo e denso parecia inviável. Marly queria ver a filha, queria visitar o neto, por quem morre de amores. Não tinha mais como adiar, nem fingir que nada acontecia.
Kelzy conseguiu preservar os cabelos com uma touca que congela os fios durante as sessões de quimioterapia, mas os milhares de demais folículos pelo corpo caíram: cílios, sobrancelhas, pelos do púbis. Marly perceberia que algo não corria bem.
Faltava uma sessão de quimioterapia para que Kelzy terminasse o tratamento neo-adjuvante e passasse pela cirurgia para retirar o que sobrou do tumor. Marly foi visitá-la.
“O que você fez no cabelo?“, surpreendeu a mãe. Kelzy sabia que viria uma pergunta. Só não imaginava que seria essa.
“Mãe, está tudo bem agora. É a última aplicação do remédio, já passou, mas eu tive um câncer. Tratei, está tudo bem.”
Kelzy Ecard e a mãe, Marly
Arquivo Pessoal
Marly não dramatizou. E ela costumava ser boa em dramatizar –como quando o filho mais novo cortou a sola do pé durante uma brincadeira. Foi um escândalo, à época. Ela tem o hábito de reagir mal a coisas pequenas e muito firmemente a coisas sérias, segundo Kelzy, que se assegura ter herdado essa característica da mãe. Além do humor ácido, é claro.
Marly não se desesperou, mas também não se aquietou. Fez várias perguntas. Queria saber de tudo. E, depois das respostas, passou um tempo aérea administrando os pensamentos.
A cirurgia de Kelzy aconteceu dias depois. Foi um sucesso. Conservadora, retirou uma parte muito pequena da mama, já que o tumor havia respondido muito bem aos tratamentos neo-adjuvantes. O marcador tumoral já era pífio.
Veio, então, um protocolo final, uma combinação de imunoterapia e quimioterapia. A estratégia terapêutica, entretanto, atacou violentamente o fígado de Kelzy e precisou ser interrompida na quarta dose.
Os médicos mantiveram apenas a imunoterapia, à qual o corpo reagiu muito bem, apesar dos efeitos colaterais intensos: infecções cutâneas por fungo, bolhas e feridas. Antes mesmo da última sessão do tratamento, ela já estava de volta ao set de filmagem. Começaria a gravação da novela “Todas as Flores”, da TV Globo.
Os exames estavam ótimos. Kelzy, nessa reta final de tratamento, mudou seus hábitos. Uma dieta rigorosa excluiu ultraprocessados e transformou o hábito de beber álcool socialmente em não beber álcool nunca mais. Aos poucos, foi retomando as atividades físicas para recuperar a massa magra perdida entre os quarenta quilos que se foram durante os quase dois anos de tratamento.
Ainda hoje, Kelzy faz exames periódicos para antecipar uma possível recidiva. Até agora, todos zerados. São cinco anos de remissão completa para que os médicos a considerem curada. Já se passaram dois.
De lá para cá, o filho se recuperou totalmente. A mãe, lá no interior, seguiu pintando.
Um de seus quadros, um hibisco rosa emoldurado sobre a televisão, foi protagonista de uma bonita coincidência: a mesma flor, na mesma cor e posição, estampa a abertura da novela Três Graças no momento em que o nome de Kelzy Ecard aparece. Quem percebeu foi Marly.
“Olha, filha, a flor que aparece junto com o seu nome. Parece a flor do quadro.”
Quadro pintado por Marly (acima) e abertura de ‘Três Graças’ com o nome de Kelzy Ecard
Arquivo Pessoal
A atriz, que não havia percebido o detalhe observado pela mãe, retardou a transmissão em dez segundos. As duas gargalharam. Não era apenas a mesma flor –estava na mesma posição, com a mesma tonalidade.
Sobre a televisão, Marly tem um pedaço da filha Kelzy. Na tela, Helga continua sumindo com corpos como quem resolve pendências domésticas. No palco, Martha tenta segurar memórias que escapam pelas frestas do tempo.
Todos esses papéis se fundem no íntimo de Kelzy Ecard e na subjetividade que permeia sua vida. Vida essa que, apesar das dores, ela festeja todos os dias.
Veja os vídeos que estão em alta no g1

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Produzido e/ou adaptado por Equipe Tretas & Resenhas, com informações da fonte.

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