(Bloomberg) — A Amazônia brasileira é repleta de vida vegetal e animal e é fundamental para a saúde do planeta como um grande reservatório de dióxido de carbono. O país também tem a matriz elétrica nacional mais limpa entre os países do G20, graças à abundância de hidrelétricas, muitas delas localizadas na própria Amazônia.
Mas muitas comunidades amazônicas não estão conectadas à rede. Em áreas remotas, sem estradas, as linhas de transmissão são difíceis de construir e de manter. Em vez disso, elas dependem de poluentes geradores a diesel para ter eletricidade.
O diesel, transportado de barco, é queimado em cerca de 160 usinas termoelétricas locais e em milhares de geradores espalhados pela floresta. O governo brasileiro gasta aproximadamente US$ 2,4 bilhões em subsídios por ano para manter esse sistema, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica.
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Agora, painéis solares e baterias de lítio começam a transformar a região, complementando ou substituindo totalmente o diesel.
“Antes dependíamos do diesel e de lamparinas”, disse Waldemir da Silva, liderança da comunidade indígena Três Unidos, com cerca de 40 famílias na foz do rio Cuieiras, localizada a cerca de 72 quilômetros de Manaus, capital do estado do Amazonas, e acessível apenas por barco. “Hoje temos energia 24 horas por dia, sem barulho e sem fumaça.”

A mudança está sendo impulsionada por uma combinação de políticas federais, queda nos custos da tecnologia e iniciativas filantrópicas para construir microrredes.
O Ministério de Minas e Energia do Brasil planeja adicionar energia solar e baterias às usinas a diesel da Amazônia. No ano passado, aprovou um conjunto inicial de 29 projetos, que juntos atenderão 650 mil pessoas e evitarão a emissão de 800 mil toneladas métricas de gases de efeito estufa até 2036, segundo estimativas oficiais. A economia em subsídios deve chegar a cerca de US$ 171 milhões.
A diferença de emissões entre o sistema interligado brasileiro e os sistemas isolados evidencia o quanto a geração de eletricidade ainda é poluente na Amazônia. Enquanto a rede nacional emitiu, em média, cerca de 0,04 tonelada de CO₂ por megawatt-hora em 2025, as emissões nos sistemas isolados chegaram a 0,67 tonelada por megawatt-hora — quase 17 vezes mais altas, de acordo com Vinicius Nunes, associado da BloombergNEF baseado em São Paulo.
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Em Tefé, cidade com 74 mil habitantes, a empresa de tecnologia em energia Aggreko está implantando um dos maiores sistemas híbridos do programa, integrando geração solar e armazenamento em baterias a uma usina a diesel já existente. A chinesa Huawei está fornecendo a tecnologia, incluindo cerca de 122 MWh em baterias. O projeto deve entrar em operação nos próximos dois anos.

A fabricante brasileira de baterias UCB Power instalou em novembro um sistema híbrido menor em Maués, cidade com cerca de 61 mil habitantes. “Quando você combina solar com armazenamento em uma usina térmica, é possível gerar competitividade, criar valor e entregar retornos compatíveis com o que qualquer investidor esperaria”, disse Antonio Maldonado, diretor de operações da empresa.
Fora das cidades e vilas amazônicas, cerca de 1,2 milhão de pessoas vivem em comunidades indígenas e ribeirinhas no fundo da floresta. Elas recorrem a geradores, mas os utilizam apenas algumas horas por dia para economizar combustível, que ficou ainda mais caro em meio às interrupções nas cadeias globais de suprimento causadas pela guerra com o Irã.
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Até recentemente, esse era o caso em Três Unidos, uma comunidade do povo Kambeba que se sustenta por meio do turismo eco‑cultural.
A eletricidade vinha de um gerador a diesel que funcionava de forma intermitente. Um programa federal chamado Luz Para Todos havia fornecido kits solares e baterias aos moradores, mas eles geravam energia suficiente apenas para iluminação básica, não para refrigeração.
Sem a possibilidade de armazenar alimentos, os moradores dependiam de gelo, caro na região. “Todo o nosso lucro ia para comprar gelo”, disse Neurilene Kambeba, que administra um restaurante e uma pousada.
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Os kits solares atendiam “às necessidades sociais, mas não às produtivas”, disse Valcléia Lima, superintendente adjunta da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), organização sem fins lucrativos. “Sem energia adequada, as comunidades ficam sem água, sem preservação de alimentos e sem capacidade de gerar renda”, afirmou.

Em dezembro, Três Unidos recebeu um novo sistema de microrrede com painéis solares e baterias. A energia 24 horas por dia permite o uso de refrigeração, e a comunidade reduziu drasticamente o consumo de diesel, queimando cerca de 1.800 litros (aproximadamente 475 galões) a menos por mês. A ocupação na pousada de Neurilene Kambeba aumentou 70%, agora que turistas podem usar ventiladores a noite inteira. Os visitantes também podem pagar por artesanato com cartão de crédito, consequência tanto da energia mais confiável quanto da presença onipresente das antenas da Starlink.
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A microrrede de Três Unidos foi financiada pelo Ministério Federal do Meio Ambiente da Alemanha, em parceria com a agência de cooperação internacional alemã GIZ (Sociedade Alemã para Cooperação Internacional) e a FAS. O sistema inclui 320 painéis solares e 120 baterias e é gerido pela própria comunidade, cujos moradores foram treinados para operar e manter os equipamentos. As famílias fazem contribuições mensais para um fundo comum que cobre os custos de manutenção.
Três Unidos é a quinta comunidade a se beneficiar do programa de microrredes da FAS. A vizinha Santa Helena do Inglês conta com uma microrrede desde 2021 e recentemente implementou um novo sistema para abastecer uma fábrica de gelo. A expectativa é reduzir os custos para os pescadores locais, que não precisarão mais viajar até Manaus para comprar gelo, apenas para ver metade da carga derreter no caminho de volta.
A microrrede em Tumbira abastece a infraestrutura da vila, incluindo a escola, o posto de saúde e o sistema de água. Assim como o sistema de Santa Helena, ela foi doada e recebe suporte técnico da UCB Power. A UCB, que possui uma fábrica na zona franca de Manaus, está testando baterias de sódio em paralelo com baterias de lítio em Tumbira para avaliar seu desempenho no clima quente e úmido da Amazônia.

Markus Vlasits, presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia, afirma que a expansão das microrredes com painéis solares e baterias é limitada pela falta de modelos de financiamento viáveis. Grandes sistemas híbridos em áreas urbanas conseguem atrair recursos públicos e investimento privado, enquanto o Luz Para Todos fornece pequenos kits solares residenciais. As microrredes ficam no meio do caminho, dependendo de doações e projetos‑piloto.
“Precisamos encontrar formas de tornar essa tecnologia mais acessível para comunidades menores, já que elas geralmente não têm capacidade financeira para investir por conta própria”, disse Vlasits, que também é diretor‑geral da NewCharge Energy, empresa que participou da implantação da microrrede de Tumbira.
Roberto de Mendonça, ex‑madeireiro e hoje dono de uma pousada em Tumbira, disse que o próximo passo deveria ser a expansão da energia solar para além da infraestrutura pública, alcançando as residências da comunidade, para que os moradores não precisem depender de uma rede instável ou do diesel como backup. Isso ajudaria a impulsionar a economia local, especialmente o turismo, afirmou.
“Se todas as comunidades tivessem energia solar, seria uma solução limpa que fortalece a sustentabilidade”, disse ele. “A energia traz qualidade de vida, progresso, renda e educação — traz tudo.”
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