Maria Bethânia no palco do Teatro Ópera, em Buenos Aires, em maio de 1984
Reprodução vídeo / Acerto Angelina Maffei
♫ ANÁLISE
♬ Em setembro de 1982, um ano antes de romper com a então já exaurida fórmula de bem-sucedidos álbuns como “Álibi” (1978) e se desviar da estética sonora da década de 1980 com o interiorizado e acústico álbum “Ciclo” (1983), Maria Bethânia rodou a saia e comandou os ventos em show orquestrado pela diretora Bibi Ferreira (1922 – 2019) – sob direção musical de Gilberto Gil – e intitulado “Nossos momentos”.
Ainda em 1982, esse show gerou álbum com o áudio de 50 minutos do espetáculo e que se impôs como um dos mais calorosos títulos da discografia ao vivo da intérprete. Contudo, como a música brasileira ainda não vivia a era do audiovisual, o show “Nossos momentos” somente pôde ser ouvido por gerações posteriores de admiradores de Bethânia.
Daí a grande importância documental do registro audiovisual disponibilizado pela pesquisadora musical argentina Evangelina Maffei neste mês de fevereiro de 2026.
Incansável na difusão extraoficial de informações e gravações raras de Caetano Veloso, Gal Costa (1945 – 2022) e Maria Bethânia, Maffei traz à cena vídeo com a gravação ao vivo do show “Nossos momentos”, captado em 24 de maio de 1984 no Teatro Ópera, em Buenos Aires, para exibição em TV argentina.
Em Buenos Aires, o show “Nossos momentos” foi apresentado em temporada intitulada “Maria Bethânia en concierto – La máxima do Brasil”. Bethânia foi para a Argentina com a banda do show, formada por Djalma Corrêa (percussão), Fernando Costa (baixo), José Maria Rocha (piano), Juarez Araújo (sopros), Juarez Moreira (violão), Ricardo Costa (bateria) e Túlio Mourão (teclados). Somente as vocalistas não viajaram para a Argentina.
Durante quase 64 minutos, o registro audiovisual desta versão quase completa do show “Nossos momentos” mostra uma Bethânia elétrica e eletrizante, se movimentando com vivacidade pelo palco do Teatro Ópera.
A intensidade do canto de “Carolina” (Chico Buarque, 1967) é uma das preciosidades ausentes no álbum ao vivo de 1982 que emergem no vídeo. Outras músicas presentes no registro audiovisual e limadas do LP, por falta de espaço, são “Bodas de prata” (Roberto Martins e Mario Rossi, 1945), “The archaic lonely star blues” (Jards Macalé e Duda Machado, 1970) – registrada por Bethânia em single de 1974 – e “Valsinha” (Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1971).
Para além da notória força da intérprete em cena, como atestam o canto dramático de “Atiraste uma pedra” (Herivelto Martins, 1958) e a abordagem potente de “Rosa dos ventos” (Chico Buarque, 1970), o show tinha vigor musical. O som dos atabaques em “Iansã” (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1972) resulta inebriante, assim como soa vibrante o arranjo do samba “A Bahia te espera” (Herivelto Martins e Chianca de Garcia, 1950).
É um privilégio poder ver Bethânia sentada no meio do palco fazendo “Oração de Mãe Menininha” (Dorival Caymmi, 1972) ou, sentada na beira de uma escada, amansando o canto feroz para entrar no clima zen de “Baila comigo” (Rita Lee, 1980).
Como provam as imagens do exuberante medley com marchas e sambas carnavalescos, número (não por acaso) aplaudido com entusiasmo pela plateia argentina, a cantora estava radiante nessa apresentação argentina de 24 de maio de 1984 e quem conhece Maria Bethânia sabe que mera mudança de humor no dia do show pode alterar a performance da artista no palco.
Detalhe: foi no show “Nossos momentos” que o samba “O que é o que é” – apresentado pelo compositor Gonzaguinha (1945 – 1991) em álbum lançado naquele ano de 1982 – entrou nos roteiros de Maria Bethânia para quase nunca mais sair (do bis).
E cabe lembrar que, no show “Nossos momentos”, Bethânia ofereceu uma das maiores e mais pungentes interpretações dos 60 anos de carreira ao dar voz a “Vida” (1980), música que Chico Buarque lançara dois anos antes. E, no que diz respeito aos textos, a récita do poema “Cântico negro” (José Régio, 1926), logo após “Vida”, também é digna de antologia. Esses momentos já tinham sido preservados no álbum ao vivo de 1982, mas nem por isso é menos prazeroso ver as imagens dos dois números.
Enfim, ao longo de carreira que já completa 62 anos em 2026 (se posto na conta o início em 1964 com dois shows coletivos e um show solo em Salvador), Maria Bethânia vivenciou em cena “momentos de luz, de voz e de sonho”, como poetizou Caetano Veloso em versos de “Nossos momentos”, música que compôs para a irmã apresentar no show de 1982.
Contudo, a imensidão e a intensidade do show dirigido por Bibi Ferreira ainda se agigantam na retrospectiva da carreira da intérprete no palco. Daí o imensurável valor documental do registro audiovisual desse show luminoso, ora disponível para o séquito de Maria Bethânia.

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Produzido e/ou adaptado por Equipe Tretas & Resenhas, com informações da fonte.

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