Os recentes casos de intoxicação por metanol chocaram o Brasil esta semana após o consumo de bebidas adulteradas. Mas para que serve o metanol?

Raphael Garcia, professor no setor de Bioquímica, Farmacologia e Toxicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que o metanol (CH₃OH) é um álcool com estrutura química parecida com a do etanol (CH₃CH₂OH), que é aquele utilizado nas bebidas alcoólicas. No entanto, o metanol não é seguro para consumo humano.

— O uso do metanol é restrito a aplicações industriais e laboratoriais, como solvente, combustível, matéria-prima para plásticos, tintas e outros produtos. Mas é extremamente tóxico para o corpo humano, mesmo em pequenas quantidades pode causar intoxicações graves e até fatais — explica.

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Isso porque, enquanto o etanol é metabolizado em acetaldeído e depois em acetato, que são menos tóxicos e liberados para fora do corpo por meio da urina, o metanol é quebrado em formaldeído e, depois, em ácido fórmico, que são subprodutos altamente nocivos para o organismo.

— O sistema nervoso central é um dos primeiros a ser afetado, causando sintomas como dor de cabeça, tontura, sonolência e confusão mental. Os tecidos mais gravemente afetados são o nervo óptico e a retina, por isso pode levar à perda irreversível da visão. Além disso, o acúmulo de ácido fórmico no sangue provoca uma acidose metabólica severa, comprometendo órgãos vitais como rins, coração e pulmões, podendo evoluir para falência múltipla de órgãos e morte se não houver tratamento rápido — diz Garcia.

De acordo com a Secretaria de Saúde de São Paulo (SES-SP), os sintomas iniciais, de até 6 horas após a ingestão, são:

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  • Dor abdominal intensa;
  • Sonolência;
  • Falta de coordenação;
  • Tontura;
  • Náuseas;
  • Vômitos;
  • Dor de cabeça;
  • Confusão mental;
  • Taquicardia;
  • Pressão arterial baixa.

Mais tarde, entre 6 horas e 24 horas, a intoxicação pode gerar para visão turva, fotofobia, visão embaçada, pupilas dilatadas, perda da visão das cores, convulsões, coma, acidose metabólica grave. O paciente pode evoluir para cegueira irreversível, choque, pancreatite, insuficiência renal, necrose de gânglios da base com tremor, rigidez, lentidão dos movimentos e morte.

— É muito comum confundir com embriaguez normal no início. O que diferencia é principalmente o embaçamento da visão, que é bem frequente, a confusão mental mais exacerbada e o prolongamento dos sintomas, porque, diferente do álcool normal, o metanol não é metabolizado totalmente, e os efeitos vão se acumulando — explica Leonardo André Silvani, biomédico especialista em Patologia e Toxicologia.

O tratamento busca frear a metabolização do metanol em mais ácido fórmico. Dependendo da gravidade e do tempo até a busca pelo atendimento, podem ser necessárias também intervenções médicas para suporte da vida, como ventilação forçada, intubação, hemoperfusão, que é uma espécie de filtração do sangue, para acelerar a excreção do metanol, e reanimação cardiopulmonar.

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— De modo geral, são utilizados antídotos específicos que diminuem a quebra do metanol nos metabólitos tóxicos, incluindo o próprio etanol. Sim, é curioso, mas o etanol pode ser usado como antídoto pois compete com a mesma enzima que metaboliza o metanol, porém com uma afinidade cerca de 50 vezes maior, reduzindo assim a quebra do metanol nos metabólitos tóxicos — explica Diego Rissi, perito legista e toxicologista na Secretaria de Estado de Polícia Civil do Rio de Janeiro e doutorando em Saúde Pública na Fiocruz.

— O metanol pode aparecer em bebidas alcoólicas de duas formas. Quando há fraude e adulteração, com alguém tentando reduzir custos ao substituir o álcool próprio para consumo (o etanol) por metanol, ou acidentalmente por erros em processos de destilação, quando partes da bebida que contêm metanol não são corretamente separadas, o que acontece principalmente em destilados produzidos de forma clandestina — diz Siddhartha Giese, analista químico do Conselho Federal da Química (CFQ).

Isso porque o metanol pode ser gerado durante o processo de fermentação da bebida alcoólica, porém ele precisa ser devidamente descartado. Concentrações extremamente baixas, de forma residual, até podem permanecer, mas inferiores às necessárias para causar a intoxicação, que já são baixas. O processo deve ser rigoroso, já que apenas 10 ml da substância já é suficiente para causar cegueira, e 30 ml é considerada a dose mínima fatal para um adulto.

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— Por isso a orientação do CFQ é verificar sempre a procedência das bebidas adquiridas, desconfiando de preços muito abaixo do mercado e de produtos sem registro. E é importante que empresas do setor realizem análises químicas periódicas para garantir a qualidade e segurança dos produtos, além de informar a população sobre os riscos do consumo de bebidas adulteradas — afirma Giese.

Segundo o Médico Sem Fronteiras (MSF), que monitora o cenário de intoxicação por metanol pelo mundo, surtos como o atual em São Paulo são geralmente ligados à adição do composto deliberadamente em bebidas adulteradas para reduzir custos, já que ele é mais barato que o etanol.

O cenário é especialmente alarmante considerando que 21% do consumo de álcool no mundo é proveniente de fontes ilegais, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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De acordo com o monitoramento do MSF, milhares de pessoas são envenenadas por metanol todos os anos, e a taxa de mortalidade em um surto costuma ser de 20% a 40%. Desde 1998, o levantamento registrou 40,1 mil afetados e 14,3 mil óbitos ligados à intoxicação por metanol.

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Produzido e/ou adaptado por Equipe Tretas & Resenhas, com informações da fonte.

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