Francis Hime e Simone estreiam o show ‘Embarcação’ no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ), com 18 músicas no roteiro entre solos e duetos
Rodrigo Goffredo
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: Embarcação
Artistas: Francis Hime e Simone
Data e local: 5 de maio de 2026 no Teatro Ipanema (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ Quando Francis Hime e Simone se afinaram no canto de “Existe um céu”, parceria do compositor com Geraldo Carneiro lançada pela cantora há 19 anos na trilha sonora da novela “Paraíso tropical” (TV Globo, 2007), já ficou evidente para o público do Teatro Ipanema que o show “Embarcação” conduziria o ouvinte a um céu lírico e imaginário onde vagueiam palavras de amor em canções amplificadas na apresentação pela paixão pela obra de Francis.
A devoção ao cancioneiro sublime do compositor carioca – partilhada por Simone com a plateia embevecida – é o mote desse show sedutor que estreou ontem, 5 de maio, no Rio de Janeiro (RJ) e que ocupará os palcos do Teatro Ipanema durante todas as terças-feiras de maio em temporada de ingressos já esgotados.
Histórico pela própria natureza do encontro inédito entre Francis Hime e Simone, o show “Embarcação” navegou sereno pelas águas do afeto, com direção e roteiro de Olivia Hime, celebrando parceria musical iniciada há 50 anos quando Simone gravou com arranjo de Francis a música “O que será (À flor da terra)”, composta por Chico Buarque para a trilha sonora do filme “Dona flor e seus dois maridos” (1976).
De lá para cá, Simone gravou várias músicas de Francis – algumas com a proeza de ter sido a intérprete mais popular, caso do samba “Embarcação” (Chico Buarque e Francis Hime), gravado pela cantora no álbum “Corpo e alma” no mesmo ano de 1982 em que Francis registrou o samba no disco “Pau Brasil”.
Não por acaso, “Embarcação” foi a música escolhida para abrir (em número solo de Simone) e batizar esse show que eleva a outro patamar a programação do já então bem-sucedido projeto “Terças no Ipanema”, orquestrado com curadoria de Flávia Souza Lima desde janeiro de 2025.
Simone canta no show ‘Embarcação’ músicas de Francis Hime até então inéditas na voz da cantora, casos das canções ‘Minha’ e ‘Imaginada’
Rodrigo Goffredo
O show “Embarcação” chegou à cena coeso, azeitado por ensaios e embalado por afetos e admiração mútua entre cantora e compositor. Ficou nítido o prazer dos artistas por estarem fazendo um show juntos pela primeira vez, ainda que já tenham dividido o palco ocasionalmente, como na estreia do último show de Francis, “Não navego pra chegar”, no Rio de Janeiro (RJ), em maio de 2025.
Cantora nascida no berço da MPB, Simone entrou inteira no universo de Francis Hime, dando a voz grave e elegante a músicas que, em alguns casos, exaltam a mulher amada.
Foi um bálsamo ouvir a cantora interpretar sozinha uma canção do porte de “Minha” (Francis Hime e Ruy Guerra, 1966) – com o devido toque do piano do maestro – e dividir com o compositor o canto de “Imaginada” (2025), canção com alma de blues composta por Francis Hime com Ivan Lins para o álbum “Não navego pra chegar” (2025). Sem falar no canto preciso de “Sem mais adeus” (1963), já no bis, com Simone sentada próxima ao piano de Francis, sublinhando o clima de aconchego reinante no show.
Pedra fundamental e inaugural da obra maestra de Francis, composta em parceria com o poeta Vinicius de Moraes (1913 – 1980), a canção “Sem mais adeus” já mostrou de cara a maestria de Francis na criação de melodias que, não raro, beiram o sublime.
Imerso em poesia, regida pelos versos de parceiros como Chico Buarque (nome mais recorrente no roteiro), Geraldo Carneiro, Olivia Hime, Ruy Guerra e o próprio Vinicius, o cancioneiro de Francis Hime está repleto de músicas embebidas em lirismo. No show, esse lirismo foi realçado pelo toque do violoncelo de Hugo Pilger, músico que embeveceu o público no solo feito no arranjo de “Atrás da porta” (Francis Hime e Chico Buarque, 1972).
Detalhe: Francis cantou “Atrás da porta” sozinho porque Simone, sábia, entendeu que nada poderia acrescentar à canção já gravada de forma definitiva por Elis Regina (1945 – 1982). Prevaleceu então o sentimento do autor em um dos pontos mais altos do show “Embarcação”.
Posicionado ao lado do violoncelista Hugo Pilger no palco do Teatro Ipanema, o tecladista Chico Lira – músico da atual banda de Simone – disse a que veio quando tirou sons percussivos das teclas no samba “Tô voltando” (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, 1979) – licença poética de roteiro que também abriu espaço para outros dois sucessos de Simone, “Jura secreta” (Sueli Costa e Abel Silva, 1977) e “Mar e lua” (Chico Buarque, 1980), cantados com Francis na posição de espectador da artista – e também quando, no canto de “O que será (À flor da terra)”, Chico Lira evocou nos teclados o arranjo inebriante criado por Francis para a gravação de “O que será (À flor da pele)” feita por Milton Nascimento para o álbum “Geraes” (1976) com a participação de Chico Buarque.
Ambos, Pilger e Lira, se afinaram em ritmo mais frenético no arranjo do samba “Pivete” (Francis Hime e Chico Buarque, 1978), primeira música do bis encerrado com a já mencionada canção “Sem mais adeus”.
Simone toca tamborim em alguns sambas do roteiro do show ‘Embarcação’, atração do projeto ‘Terças no Ipanema’
Rodrigo Goffredo
Além de cantar, Simone tocou percussão ao longo do show, percutindo um tamborim em sambas como “Amor barato” (Francis Hime e Chico Buarque, 1981), “Anoiteceu” (Francis Hime e Vinicius de Moraes, 1966) e “Samba pra Martinho” (Francis Hime, Geraldo Carneiro e Olivia Hime, 2015), o primeiro ouvido em solo vocal de Francis e os dois últimos cantados em duo pelos artistas, com direito a um improviso de Simone a capella de “Café com leite”(Martinho da Vila e Zé Katimba, 1996), samba que batizou o álbum que a cantora lançou há 30 anos com músicas de Martinho da Vila, o bamba homenageado por Francis.
Além do recorrente tamborim, Simone também tocou bongô enquanto cantava o bolero “Maravilha” (1977), pondo o devido molho cubano na música composta por Francis e Chico Buarque para exaltar Cuba.
Mesmo que o samba-enredo “Vai passar” (Chico Buarque e Francis Hime, 1984) tenha entrado na avenida em tom menos majestoso do que o habitual, no arremate do show (antes do bis), nada empanou o brilho do show “Embarcação”.
Com Simone à vontade no universo de Francis Hime, em satisfação visível tanto na interpretação sem melodrama da canção “Trocando em miúdos” (Francis Hime e Chico Buarque, 1977) como nos detalhes como o canto ameaçador do verso “O homem vem aí” ao fim do samba ambientalista “Passaredo” (Francis Hime e Chico Buarque, 1975), número no qual a cantora tocou apito, a primeira das quatro apresentações do show “Embarcação” celebrou tanto o encontro dos artistas quanto a existência resiliente de uma MPB que figura entre o que de melhor se produziu na cultura do Brasil em todos os tempos.
Sim, existe um céu na música brasileira.
Francis Hime e Simone dividem o palco em clima afetuoso que envolve o show ‘Embarcação’ em atmosfera aconchegante
Rodrigo Goffredo
♪ Eis o roteiro seguido em 5 de maio de 2026 por Francis Hime e Simone na estreia do show “Embarcação” no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, dentro do projeto “Terças no Ipanema”:
1. “Embarcação” (Francis Hime e Chico Buarque, 1982) – Simone
2. “Existe um céu” (Francis Hime e Geraldo Carneiro, 2007) – Simone e Francis Hime
3. “Passaredo” (Francis Hime e Chico Buarque, 1975) – Francis Hime (com intervenção de Simone ao fim)
4. “Imaginada” (Francis Hime e Ivan Lins, 2025) – Simone e Francis Hime
5. “Trocando em miúdos” (Francis Hime e Chico Buarque, 1977) – Simone
♬ “Café com leite” (Martinho da Vila e Zé Katimba, 1996) – Improviso a capella de Simone
6. “Samba pra Martinho” (Francis Hime, Geraldo Carneiro e Olivia Hime, 2025) – Simone e Francis Hime
7. “Jura secreta” (Sueli Costa e Abel Silva, 1977) – Simone
8. “Mar e lua” (Chico Buarque, 1980) – Simone
9. “À flor da terra (O que será)” (Francis Hime e Chico Buarque, 1976) – Simone
10. “Maravilha” (Francis Hime e Chico Buarque, 1977) – Simone e Francis Hime
11. “Atrás da porta” (Francis Hime e Chico Buarque, 1972) – Francis Hime
12. “Minha” (Francis Hime e Ruy Guerra, 1966) – Simone
13. “Anoiteceu” (Francis Hime e Vinicius de Moraes, 1966) – Simone e Francis Hime
14. “Amor barato” (Francis Hime e Chico Buarque, 1981) – Francis Hime
15. “Tô voltando” (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, 1979) – Simone
16. “Vai passar” (Francis Hime e Chico Buarque, 1984) – Simone e Francis Hime
Bis:
17. “Pivete” (Francis Hime e Chico Buarque, 1978) – Francis Hime
18. “Sem mais adeus” (Francis Hime e Vinicius de Moraes, 1963) – Simone

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Produzido e/ou adaptado por Equipe Tretas & Resenhas, com informações da fonte.

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