O Federal Reserve (Fed) concluirá sua reunião de política monetária na próxima quarta-feira (29) e a expectativa unânime do mercado é a de que a autoridade norte-americana manterá a taxa de juros no intervalo atual, entre 3,50% e 3,75% ao ano. A postura deve ser marcada pela extrema cautela, com o presidente Jerome Powell adotando um tom firme e dependente de dados em sua provável última coletiva de imprensa, que vem sendo chamada pelo Bank of America (BofA) de “canto do cisne hawkish”.

Desde o último encontro do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), em março, a conjuntura macroeconômica global sofreu forte impacto com a escalada do conflito no Oriente Médio. O estreito de Ormuz, fundamental para o comércio de energia, continua virtualmente fechado e com fluxo mínimo. Essa conjuntura levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a publicar uma revisão do seu cenário base, projetando o crescimento global para baixo e a inflação para cima.

Mas não é só o conflito que pesa. Mesmo antes do ápice das tensões, o cenário doméstico norte-americano já pedia prudência, segundo os especialistas. 

Inflação nos EUA

A inflação continua sendo a âncora principal da política de juros americana. O índice de Despesas de Consumo Pessoal (PCE), a principal métrica acompanhada pelo Fed, permanece estacionado acima da meta.

O cenário de curto prazo deve evidenciar ainda mais essa pressão. Segundo o BofA, os dados de março do PCE devem trazer um salto na inflação cheia (headline inflation), chegando a 3,4% na comparação anual, impulsionada pelo aumento nos preços de energia e combustíveis. O núcleo do indicador (core PCE) deve se manter na casa de 3,1%. 

Estimativas do BofA apontam que o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos deve registrar um crescimento sólido de 2,4% no primeiro trimestre. O mercado de trabalho, embora venha sentindo os impactos com sinais modestos de arrefecimento e dados fracos de formação de vagas, não está despencando, o que mantém a pressão de demanda.

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Para Rodolpho Sartori, economista da Austin Rating, o cenário dos EUA já era de uma inflação incômoda, quadro que agora piora com o risco inflacionário ligado aos combustíveis. “Será uma reunião de cautela”, afirma Sartori. 

Impacto da guerra além das bombas

Segundo análise de Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, o conflito traz impactos além da interrupção do Estreito de Ormuz, corredor pelo qual transita cerca de 20% de todo o petróleo global. Ele destaca que o verdadeiro rastro de destruição está na infraestrutura energética. O conflito causou a destruição de mais de 40 plantas petroquímicas em sete países, o que forçou restrições e o fechamento parcial das unidades.

Essa paralisação retirou 10 milhões de barris diários do mercado, levando o barril de petróleo a picos de US$ 113, além de causar a perda de 15 milhões de toneladas anuais de capacidade produtiva de fertilizantes e polímeros.

Simioni alerta que o cenário consolida um “imposto geopolítico” permanente “que se infiltra na estrutura de custos”, afetando cadeias de abastecimento e a dinâmica inflacionária global.

Risco de alta de juros

Neste contexto, o debate dentro do Fed poderá ser não apenas quando os juros cairão, mas se precisarão voltar a subir. Relatórios do Goldman Sachs apontam que o diretor Christopher Waller afirmou que “os riscos para a inflação superam aqueles para o mercado de trabalho” e apontou o perigo de que o cenário energético crie uma alta inflacionária persistente.

Mais enfático, o presidente da distrital de St. Louis, Alberto Musalem, alertou que “poderia apoiar o aumento da taxa de política monetária para evitar um afrouxamento real inadvertido” caso os índices de inflação voltem a acelerar fortemente.

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Simioni explica que subir juros frente a um choque de oferta não é a melhor resposta para o crescimento da economia, mas a inação gera perigos de credibilidade. 

A estratégia mais provável da autarquia será sinalizar a possibilidade de aperto, limitando o otimismo dos mercados, mas mantendo as opções abertas.

Com o agravamento das tensões e o cenário doméstico norte-americano pedindo prudência, as projeções iniciais de cortes foram revisadas. Segundo o economista Rodolfo Margato, a XP não projeta redução das taxas norte-americanas para 2026.

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O relatório do BofA projeta dois cortes de 0,25 ponto percentual cada, totalizando uma redução de 50 pontos base no ano. A expectativa de início dos cortes foi adiada de junho/julho para setembro e outubro de 2026. O relatório ressalta que, embora ainda esperem esses cortes em 2026, há um alto risco de que eles não se concretizem caso os choques inflacionários decorrentes da guerra no Oriente Médio persistam.

A ferramenta FedWatch, do CME Group, consolida a visão de investidores apontando que a probabilidade de manutenção ou até elevação supera amplamente a de cortes, indicando que a primeira queda dos juros poderia acontecer apenas na reunião de dezembro de 2027.

Para a economista Andressa Durão, do ASA, a projeção da casa prevê cortes somente no ano que vem, caso a inflação volte para a meta. 

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Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, a retomada do ciclo de cortes depende de “evidência consistente de desaceleração inflacionária”, especialmente no núcleo do PCE, além de sinais mais claros de arrefecimento do mercado de trabalho e redução dos choques exógenos, já que o Fed vem sinalizando dependência de dados e maior cautela diante de incertezas recentes.

CME FedWatch Tool – Probabilidades de corte de juros nos EUA
Data do Fomc/juros 2,25 a 2,50% 2,50 a 2,75% 2,75 a 3,00 % 3,00 a 3,25% 3,25 a 3,50% 3, 50 a 3,75% 3,75 a 4,00%
29/04/2026 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 100,00% 0,00%
17/06/2026 0,00% 0,00% 0,00% 0,00% 5,10% 94,90% 0,00%
29/07/2026 0,00% 0,00% 0,00% 0,30% 10,80% 88,80% 0,00%
16/09/2026 0,00% 0,00% 0,00% 1,40% 18,50% 80,10% 0,00%
28/10/2026 0,00% 0,00% 0,10% 1,70% 19,80% 78,40% 0,00%
09/12/2026 0,00% 0,00% 0,20% 3,60% 25,90% 70,30% 0,00%
27/01/2027 0,00% 0,00% 0,20% 3,50% 25,40% 69,30% 1,60%
17/03/2027 0,00% 0,00% 0,30% 4,00% 26,30% 67,80% 1,60%
28/04/2027 0,00% 0,00% 0,30% 3,90% 25,80% 66,90% 3,00%
09/06/2027 0,00% 0,00% 0,70% 6,20% 30,00% 60,40% 2,70%
28/07/2027 0,00% 0,10% 1,10% 8,00% 32,40% 55,90% 2,50%
15/09/2027 0,00% 0,20% 2,20% 11,90% 36,20% 47,30% 2,10%
27/10/2027 0,10% 0,50% 3,70% 15,50% 37,80% 40,60% 1,80%
08/12/2027 0,80% 4,60% 17,30% 38,00% 37,50% 1,60% 0,00%
Fonte: CME FedWatch Tool

Mudança de gestão

Em meio a essa conjuntura macroeconômica, Jerome Powell se prepara para deixar a presidência do Fed após oito anos à frente da instituição, em uma gestão marcada por pressões de Donald Trump e desafios como a pandemia, a guerra da Ucrânia e, mais recentemente, os conflitos no Oriente Médio.

O nome escolhido por Trump para sucedê-lo é Kevin Warsh, ex-membro do Fed e defensor de juros mais baixos e com uma trajetória de rigor no combate à inflação.

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Em análises recentes sobre os discursos de Warsh no Congresso, economistas do Bank of America relataram que a postura exibida pelo ex-membro do Fed reforça a independência política do banco, observando que ele “não apresentou argumentos convincentes para cortes de juros no curto prazo”. Warsh declarou preferência por índices de inflação aparados e demonstrou intenção de reduzir as sinalizações antecipadas dadas ao mercado (forward guidance).

Dessa maneira, analistas avaliam que a reunião desta semana será ancorada em imensa cautela, mantendo o juro travado até que a guerra, o petróleo ou a inflação cedam.

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Produzido e/ou adaptado por Equipe Tretas & Resenhas, com informações da fonte.

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